Cientistas confirmam: animais têm consciência, trate-os como iguais

Seu cachorro é um gênio, segundo a neurociência
28 de abril de 2019


A suspeita que a grande maioria dos donos de animais de estimação sempre teve, ganhou em 2012, um reforço respeitável. Um grupo de cientistas de renome mundial publicou um manifesto atestando que os animais possuem um grau elevado de consciência. E a afirmação vai muito além de cachorros e gatos fofinhos.

Com um nome digno daqueles tratados que entram para os livros de História, a Declaração de Cambrigde sobre a Consciência Animal, talvez seja o primeiro grande passo que a humanidade dá em direção à uma relação mais humana (e menos estúpida) entre homens e bichos.

Animais não-humanos como mamíferos e aves, e vários outros, incluindo o polvo, também possuem as faculdades neurológicas que geram consciência”, afirmou o grupo, na chamada Declaração de Cambridge. O Doutor e etólogo Mark Bekoff comentou: “minha primeira reação foi de total incredulidade. Nós realmente precisávamos de um anúncio para definir algo tão óbvio?


Todo mundo sabe que os animais têm consciência. Eles percebem e entendem seu entorno. E muitos, entre eles golfinhos, elefantes e alguns pássaros, são inclusive autoconscientes. Possuem um certo senso de si. Ok, pode ser que um cachorro não saiba quem é do mesmo jeito que eu e você sabemos quem somos. Mas o ponto é: mesmo que não saibam quem são, eles têm consciência de sua própria dor. Foi o que aconteceu comigo quando tive um acidente de bicicleta: bati a cabeça e tive amnésia. Quando o médico me perguntou como me sentia, eu disse: “Estou sentindo muita dor”. E quando ele perguntou quem eu era, respondi: “Não lembro meu nome.” Da mesma forma, é errado fazer um animal sofrer só porque ele pode não saber quem é.

De acordo com os cientistas, “a ausência de um neocórtex não impede que os animais experimentem estados de afeto”. Do ponto de vista evolutivo, o neocórtex é a parte mais recente do nosso cérebro – esse detalhe anatômico é o culpado por cientistas se negarem por tanto tempo a admitir a consciência em animais não-humanos.

Ser consciente tem várias interpretações e outras tantas implicações. Se reconhecer diante de um espelho é uma delas. Atingir a fase REM durante o sono também é um pressuposto de consciência: é nesse período que nossos sonhos ficam mais vívidos e fáceis de lembrar. Essas duas prerrogativas já foram observadas em diversos animais.

A Ciência todos os dias nos fornece mais comprovações de como os animais são inteligentes e emocionais. Eles são seres que têm sentimentos e sabem amar. Os cães possuem moral, porque quando eles jogam, jogam limpo, e se por acaso nos mordem ao brincar, é no seu comportamento que se expressam arrependidos, mostrando claramente que não era sua intenção nos machucar. Os animais também possuem o poder de perdoar. Marc Bekoff.

Segundo Marc Bekoff, o autor de O Manifesto dos Animais:

Os pesquisadores descobriram mais do que isso. Sabemos, por exemplo, que ratos e galinhas sentem empatia. Eles conseguem se colocar no lugar dos bichos ao redor e sentem pena ao vê-los sofrer. Elefantes vivenciam alegria, luto e depressão. Lamentam a perda dos amigos, assim como os cães, chimpanzés e raposas vermelhas. Os polvos foram protegidos de pesquisas invasivas no Reino Unido bem antes dos chimpanzés, pois os cientistas já haviam reconhecido que eles são conscientes e sentem dor. Hoje muita gente ainda não quer admitir esses fatos científicos, pois terão de mudar a forma como tratam os animais. Na verdade, temos de tratar todos os animais da mesma forma, com compaixão e empatia – sejam eles os “animais humanos” como nós, sejam todas as outras espécies.

Não estou falando apenas dos abatedouros – embora seja óbvio que, se houvessem mais vegetarianos no mundo, menos animais sofreriam. Estima-se que 25 milhões de ratos, pássaros, peixes e outros animais sejam usados todo ano em experimentos de laboratório. Muitos passam por um sofrimento terrível durante os testes e a maioria sofre “eutanásia” – são mortos – depois. As pessoas justificam atitudes assim dizendo que vão ajudar os humanos. No entanto, mais de 90% das drogas que funcionam em animais não têm o mesmo efeito em nós. Menos de 10% delas nos ajudam de fato. Além disso, já existem formas de pesquisa que não maltratam os animais. Em lugar de gotejar xampu nos olhos de coelhos imobilizados, por exemplo, podemos usar modelos de computador para simular a ação do produto sem dano algum. Portanto, não se trata apenas de um desperdício de animais; é um desperdício de tempo e dinheiro que poderiam ser investidos em outras alternativas.

Por isso, concluí que devemos aplaudir a Declaração de Cambridge. Ela não traz nada de novo, mas mostra que cientistas famosos finalmente admitem que animais têm consciência. A declaração é mais uma prova de que devemos tratar os animais com todo o respeito. E reconhecer que eles não querem sentir dor, do mesmo jeito que nós não queremos. Seria perigoso fazer esse tipo de distinção. Todos os animais devem ser tratados como indivíduos. Ainda vai levar tempo para que isso aconteça. Mas a boa notícia é que cada vez mais pessoas aderem a essa ideia.


A declaração foi assinada por profissionais como: cientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas e neuroanatomistas e neurocientistas computacionais, todos participantes da Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and Non-Human Animals, evento sobre consciência humana e não-humana realizado na Universidade de Cambridge, em julho de 2012.
Agora que percebemos que não estamos tão acima dos outros animais da Terra como a arrogância humana sempre nos fez crer, o próximo passo é entender como é, de fato, a experiência desses animais.

Clique aqui para ler o manifesto na íntegra.

Fontes: Revista Galileu e Super Interessante.

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